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Vox Animalorum
Em palpos de aranha, já farto, ouvindo cobras e lagartos, engulo sapos, dois a dois, ponho o carro à frente dos bois, tento, numa só cajadada, pegar dois coelhos _ que nada; tropeço, insisto, arrasto as mágoas ... e dou com os burros n'água.
No mato, para onde corro, percebo que estou sem cachorro. Gato escaldado, mesmo fraco, prossigo, e ao dar com os macacos ordeno: "Cada macaco no seu galho!" _ mas se juntam e me avacalho. Encaro a cobra e mato _ mas qual! ...esqueço de mostrar o pau.
Agora chove, e é em vão que falo: "Por favor, tirem o cavalo". Aceito o braço do urso, vacilo às lágrimas do crocodilo, ouso cantar de galo, e no ato apanho o mico e pago o pato; sofro, caio, trombo me aleijo ...enquanto a vaca vai pr'o brejo.
Engulo mosca além da conta, giro como barata tonta, e na hora em que a porca torce o rabo, que vem a ser, ao fim e ao cabo, a mesma em que a onça bebe água, atraio a porca e a onça, afogo-as, apresso-me a fugir de esguelha ...mas fica a pulga atrás da orelha.
Ouço um tropel. O chão sacode. Lá vêm: expiatórios bodes, criadas cobras, negras ovelhas, vacas de presépio em parelha, espíritos de porco em revoada... Ganho montaria p'ra escapada: é cavalo dado, um presente ...mas não agüento e olho os dentes.
Pronto. Chega de estripolias. Moral da história, exata e fria: não fosse a bicharada amiga, como expor as muitas intrigas, as peripécias e as dissídias que fazem parte desta vida? Dito o quê, repouso das canseiras ...pensando na morte da bezerra.
Roberto Pompeu Toledo
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