A elaborada malha genética, como um vasto ladrilho de ruas e estradas, por onde os genes descontraidamente se deslocam, é por vezes sobressaltada pelo ruído de alerta que o organismo desperta, aquando das proximidades temporais de uma possível oportunidade de se reproduzirem. E eis que estes genes se agregam em pares, e em alegoria copulam, processo designado neste caso, por mitose ou meiose… consoante o resultado pós copulação. Neste universo genético, sempre de incertezas, houve o incrível resultado do cruzamento entre dois seres humanos, do qual fora formado um singular híbrido.
Num tempo longínquo e não definido, numa dessas Eras históricas que tanto gostamos de fazer catalogar o termo Tempo, surgiu A Lenda de Ratzui… um híbrido nos catálogos dos homens de saber da época, e uma aberração no catálogo da sociedade em geral. Ratzui, fora tido como o concebo de alguma divindade de vil natureza… ao ponto de ser inclusive elevado ao patamar de mal absoluto. Esta catalogação exagerada por parte da população, a ele circundante, advinha do facto de seu tenebroso aspecto físico. Com um rosto coberto por um espesso e fino pêlo cinzento grisalho, que lhe fazia sombra por totalidade a sua área facial… estética realçada pelos dentes finos e pontiagudos, de grandes proporções, tornando praticamente impossível o acto de os envolver na sua totalidade com os finos lábios rosáceos. O seu nariz, era a principal chacota, a ele infortunadamente prestada, devido ao seu descomunal tamanho e forma pontiaguda, com uma singela gota de muco na ponta do mesmo… servindo de mais um depreciativo adjectivo. Os olhos escuros, de grandes dimensões, demonstravam uma alma vaga e magoada, por ser rejeitado…Rejeitado! A fatiota rota nos punhos gastos, e nas coteveleiras, do seu longo casaco preto gasto, de algodão… conseguido após longas horas, de vasculhar na imundo aterro sanitário da cidade, permitia-lhe a rarefeita acumulação, ou na verdade, sensação de calor… nas longas noites esfriadas, na abertura do tampo de um esgoto citadino, permitindo que o seu sangue circula-se nas veias. Ratzui, era então assim chamado, sua mãe, uma abastada cortesã da corte, seu pai de origem incógnita, mas segundo a população, um desconhecido homem solitário, de terras longínquas que aportara num velho barco severamente maltratado, por vagas de oceanos inacessíveis a um qualquer ser humano. Este indivíduo, havia pagado por favores sexuais à dita cortesã, com três sacos de raras moedas de ouro, e assim foi lançada a semente… houve quem dissesse que tresandava a peixe, tinha três dedos em cada mão, uma cor corporal de lagostim, um rosto sempre mascarado por um máscara metálica revestida com conchas, corais e algumas algas, e elementos marinhos, uma horripilante corcunda da qual se denotava a estrutura espinhal óssea… vestido com uns trapos mal cosidos acastanhados, o essencial de forma a cobrir as zonas, tidas na Era como fontes de pecado. Sendo que subitamente desapareceu da cidade, como havia aparecido.
No dia em que Ratzui nasceu, a Lua encobriu o Sol, e uma longa vaga de água marinha, galgou a cidade inundando especificamente até à casa da cortesã, sendo que Ratsui ao sair das entranhas do ventre materno, escorregou das mãos da parteira e mergulhou nas águas oceânicas que haviam inundado o quarto. Devido ao seu aspecto, o nosso protagonista, ao invés de crescer em meio familiar, cresceu em meio prisional, de uma casa correccional, saber-se-á lá porquê…
Passados vinte e quatros anos após o seu peculiar nascimento, Ratzui ainda se sentia como uma criança… um dos seus desportos favoritos era a “Apanhada”, ao invés de seus companheiros de jogada serem humanos, eram os seres de esgoto que havia conhecido, como uma ratazana a que chamava Linda, e um gato zarolho de ar leproso a que chamava Zé. Foi num desses dias de companheirismo entre espécies, que Ratzui conheceu a sua paixão!... Enquanto se deslocava por um dos túneis de esgoto, deparou-se com ela!... Sim, a sua amada, que boiava nas águas de esgoto… vestida de noiva, de longos cabelos castanhos adornados em forma de cachos… uma deusa ao olhar de Ratzui, que havia ido visitar a sua subterrânea e gélida habitação… Mas a presunçosa princesinha, havia padecido, sendo que algumas partes de seus membros estavam separadas de seu corpo… Para Ratzui o facto de estar morta, fez-lhe entristecer o peito… mas ao invés de deixar o cadáver prosseguir a sua solitária navegação, Ratzui saltou para dentro do canal, e recolheu para o beirado do esgoto, os restos mortais da Noiva, nome que lhe chamava interiormente. Após longas horas de costura, cada uma das partes do corpo foi reposta no seu sítio original…. Sim! Exclamou de forma extenuante, tinha que descobrir o que acontecera a ela! Esgotado pelas longas horas de esforço, Ratzui posou o corpo no chão frio, e deixou-se olhar várias horas para a Noiva… quando que num movimento decisivo e repentino, Ratzui ergueu-se do chão, e colocou o seu longo casaco sobre os ombros da Noiva, não houvesse sentir frio, pois estar morto deixa o corpo num estado gélido. Olhou então novamente as pálpebras fechadas da Noiva, vindo a questão em sua mente… Como serão seus olhos? Como a fina mão, ergueu as pálpebras da Noiva, pondo a descoberto dois esverdeados olhos, que ao invés da putrefacção do restante corpo, pareciam ainda possuir vida incumbida. A luz pálida reflectida pela Lua Cheia, inundava de iluminação em foco o esgoto, palco de toda a acção. Ao esgueirar-se pela grelha de esgoto com um velha caixa, Ratzui emocionado com todo o acontecimento, contemplava a face da Lua a fim de chegar a conclusões, suas lágrimas de pesar cessaram então, regressou para junto da Noiva, e num momento de inspiração interior, pegou pelos braços a Noiva, encostando seu rosto em seu ombro… e uma mão como outra mão, e outra mão nas costas da Noiva… Ratzui fechou então os olhos, e passou o resto da noite a dançar com uma Noiva cadáver, sob o olhar de uma peculiar plateia: um narrador, uma ratazana chamada Linda, um gato chamado Zé, e um leitor qualquer. (Continua)